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20.6.09

bolinho caipira de Jacareí

Bolinho da vó Nicota



Nos anos 50, quando eu era menininha, uma diversão eram as quermesses no Largo da Matriz de Jacareí, nas ocasiões de festas religiosas, e a grande festa era no dia 8 de dezembro, dia a Imaculada Conceição, padroeira da cidade.


Na pequena cidade de interior do Vale do Paraíba, com a população predominante católica, havia motivos para celebrar os santos. Era motivo também para as pessoas se encontrarem, escutarem a banda tocando no coreto enquanto as crianças brincavam no jardim com rosas nos canteiros, tudo isso acontecia depois da missa. Lembro-me que quando estava na missa já sentia o cheiro vindo lá de fora e o burburinho dos que estavam montando as barracas.


E tinha procissão. Na Semana Santa, depois da procissão e da missa tinha quermesse. Durante todo o mês de maio havia homenagem à Virgem Mãe, quando as crianças vestidas de anjinhos (e eu fui muitas vezes um deles) depositavam flores nos pés da imagem de Nossa Senhora da Conceição, no altar da Matriz, e depois tinha quermesse.


Em junho aconteciam as festas juninas, além da quermesse do Largo da Matriz as pessoas organizavam festas com fogueira nas casas e soltavam balão. Meu tio fazia grandes balões coloridos de papel de seda e soltava nas noites de Santo Antonio, São João e São Pedro, lá no quintal da minha avó para alegria de todos, era uma grande emoção ver os balões subindo até sumir aquele pontinho luminoso no céu se misturando com as estrelas.


Na casa da minha avó Nicota tinha um fogão de lenha que me recordo sempre aceso, ela fazia doces e compotas em grandes tachos, eram doce de mamão verde, de abóbora, de laranja, e o cheiro de cravo e canela exalava na casa toda.


Mas minha avó era famosa pelos bolinhos caipira que preparava. Nas quermesses da Matriz lá ia ela, minhas tias, minha mãe e as amigas com os apetrechos montar a barraca e preparar os bolinhos. Era grande movimento dentro da barraca para atender a fila de fregueses. Nunca me deixavam ficar dentro da barraca porque eu era pequena e podia ser perigoso, levavam um fogão e fritavam na própria barraca, espalhando o cheirinho típico por toda a praça. O bolinho saia crocante e quente, feito para aquecer o corpo e os corações.

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Depois, quando adolescente, no colégio faziam festas juninas, e minha mãe, como professora de Artes, era uma das organizadoras dessas festas, preparando enfeites e criando brincadeiras para os alunos e suas familias. E lá também era montada uma barraca de bolinho caipira. Várias pessoas ajudavam, era a barraca mais concorrida.


O sabor daquele bolinho está na minha memória, nunca mais encontrei nada parecido, parece que a alegria das festas tinha a ver com aquele gostinho de farinha de milho branca misturado com carne de porco temperadinha. Uma verdadeira delicia.


Minha mãe continuou com a tradição da familia, fez muitas e muitas vezes o bolinho, sempre presente em todas as festas lá em casa. Depois fez mais muitas e muitas vezes para meus filhos cada vez que ia ver os netos.


Eu aprendi a fazer, mas acho que não tenho "a mão", não fica nem parecido com o que a vó Nicota e a mamãe preparavam, aquele gostinho de infância.
Será por causa da farinha? da carne? do óleo? da panela? do fogão?
Será por causa da simplicidade que hoje não mais existe?


Hoje vejo inúmeras variações de receitas de bolinho caipira, acrescidos de outros ingredientes, pode até ficar bom, mas gostoso mesmo é aquele com a lembrança do afeto de quando era criança.


Assim são as receitas, de uma criação surgem várias versões, cada cozinheiro dá o seu tom. As tradicionais são as mais básicas, o que não impede que as novas criações e mesmo as releituras das antigas receitas possam surpreender.


Porém, importante é saber a história, preservar a memória e conservar o que nossos antepassados nos legaram. Por isso, a receita da minha avó Nicota, a dona Ana Rita Leite Gehrke, é mantida como foi criada e continua, para mim, a mais saborosa.



receita do bolinho caipira da minha avó - clique aqui

2 comente:

Regina Fernandes disse...

Ju esses momentos de recordação são uma maravilha! Lendo seu texto fui com o pensamento lá atrás e recordei as festas juninas de minha infância. Cheguei a sentir o cheiro das guloseimas e a ouvir o barulho da fogueira.
Amei o seu post!

Bjs
Lindo dia

tita coelho disse...

Juju,
recordar é viver... Como diz o ditado! Lendo teu texto me lembrei dos doces e bolinhos de minha vó, muito bom! Parece que comida de vó tem gosto e sabor diferente!
Beijos menina