janela

“a vista de uma gravura”
Nos primeiros anos do grupo escolar (o “Grupão” em Jacareí, cidade onde nasci), tinha uma parte da aula, que eu gostava muito. A professora colocava um cavalete na frente da sala onde tinham penduradas folhas com estampas de paisagens, então ela pedia para fazermos a descrição da gravura ou a narração, uma história, com o que estávamos vendo na gravura. Até hoje lembro de algumas daquelas paisagens bucólicas, desenhos coloridos que representavam a vida cotidiana, lembro-me especialmente de uma, era uma fazenda, tinha galinhas no quintal, uma menina num balanço pendurado numa árvore, um menino de macacão, a casa com chaminé, um riacho no fundo, montanhas, lembrando isso até o cheiro da cera que dava brilho à madeira do piso da sala me vem à memória.
Olhando a minha janela agora comecei a fazer uma descrição ao estilo dos primeiros anos escolares. Deitada na minha cama, posicionada bem em frente à uma grande janela posso ver uma cena encantadora – descrição à vista de uma janela:
Grandes árvores muito verdes fazem o fundo, por entre suas folhas e galhos vejo pedacinhos de céu azul, linda combinação de vários tons de verde e azul celeste salientada pela luminosidade da manhã, descanso para os olhos.
Em primeiro plano uma fila de bromélias emoldura uma palmeira que ainda está crescendo, mais ao fundo um canteiro de pingo de ouro com suas miúdas folhas verde claro e florzinhas azuis-violetas (ainda não entendi por que chama pingo de ouro essa planta que serve de cerca viva!). Então tem o colorido dos hibiscos, amarelos e vermelhos, balançando suavemente com a brisa constante que vem do leste.
A janela é voltada para o norte, de manhã o sol chega pelo lado direito, as cores vão surgindo já por volta das cinco horas, ao meio-dia tudo é banhado por um brilho intenso e no final da tarde o sol amarelado pelo lado esquerdo deixa tons alaranjados e dourados nos verdes. Nas noites de lua cheia minha paisagem é prateada.
E além de tudo é uma paisagem com movimento e sonora... logo cedinho o canto dos mais variados passarinhos, rolinhas, bem-te-vis, anús, o vôo ligeiro dos beija-flores, perto do meio do dia dançam coloridas borboletas, cantam as cigarras, à noite é a vez dos grilos e sapos, e tem também os cachorros que parece que se comunicam à distância com os mais diferentes latidos, tudo isso com as lagartixas que rodeam pela moldura da janela. Ah! Claro, tem as muriçocas pra lembrar que não tem paraíso perfeito!
E tem gente que ainda me pergunta como consigo ficar sozinha aqui!
Só de um pedacinho da minha janela tenho esse mundo!!
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