na pracinha
Quando eu era pequena, lá nos idos anos 50, na cidadezinha de interior, eu e todas as crianças tínhamos mêdo dos andantes, bêbados, pedintes, homens do saco que de vez em quando circulavam uns dias pela cidade e depois desapareciam, geralmente chegavam cruzando a ponte sobre o rio, que era perto da minha casa.Atravessar a ponte era como se fossemos para um outro mundo, parecia que tudo vinha de lá, os onibus que chegavam da capital, os nossos parentes de outras cidades, os vendedores de porta em porta, os forasteiros, e para mim, pequenininha, era um mistério cruzar aquela ponte antiga calçada com grandes pedras onde as águas correntes faziam forte ruído que eu ouvia no silêncio da noite quando ia me deitar. E a ameaça do homem do saco pairava na minha cabeça.
Isso me vem a lembrança algumas vezes, quando estou esperando o onibus para o trabalho de manhã cedo, na pracinha aqui perto de onde moro, bairro central de uma grande cidade de interior - com mais de um milhão de habitantes - e vejo a cena que fotografei ontem enquanto o onibus não vinha.
Esse é um point dos desocupados, são adultos, posso calcular na faixa de 30 a 40 anos, alguns mais velhos, ou pelo menos aparentam ser mais velhos. Eles deixam seus pertences escondidos embaixo dos arbustos da praça - é seu guarda-roupa - e todas as manhãs estão reunidos neste banco com papo solto, alguns com copo na mão - não sei se de café ou outra bebida - e percebo algumas vezes discussões, mas ontem estavam todos alegres, brincando, rindo. Ainda um estava dormindo, como podem observar no canto direito da foto, dormindo esparramado na grama sem qualquer constrangimento com a agitação da cidade acordando.
E não são apenas homens, tem mulheres no grupo, os sacos agora são sacolas de lojas, até umas de grife. Ontem eram doze pessoas, mas já cheguei a contar mais de vinte numa dessa reuniões matinais. Nào tem como não observar este grupo, há quase um ano e meio espero o onibus de cinco até uns vinte minutos, dependendo do dia, e essa gente está sempre ali, penso que dormem na redondeza ou na pracinha mesmo, porque tem vários bancos, e de manhã fazem o meeting.
Sabemos que esse tipo de pessoa tem além de dificuldades financeiras também dificuldades psiquicas, são pessoas que necessitam atençao. Nào deveriam estar nas ruas. Sei que é complicado, mas os governos e administrações públicas devem tomar providências, para o bem desses desabrigados e para que a cidade não assista à esse tipo de miséria humana, logo de manhã quando estamos indo para o trabalho.
4 comentários:
Jujú,
coisa mais triste isso...E realmente ninguém faz nada! As vezes tu escuta que "eles" é que não querem ir para o abrigo! Sim, nem eu gostaria, tem uns abrigos que são um terror...Essas pessoas merecem dignidade tb!
Dona moça, tem presente pra ti lá no meu blog!
beijos
Jujú, aí está o link da poesia http://ensaiosamadores.blogspot.com/ ..Beijocas e obrigada pela foto !!! :)
Olá! Fiquei muito feliz com sua visita! Gosto de lembranças , de praças e filosofar sobre as injustiças. Gostei daqui, aos poucos vou conhecendo seus outros espaços. Moro perto de sua cidade , aliás fiz minha primeira faculdade aí, morei no Centro e no Guanabara na década de 80.
Beijo!Prazer em conhecer. Tenho sangue espanhol e português também, além do sangue indígena.
Pois é, situação triste e complicada.
O governo parece não dá a mínima pra essa gente, e nós ficamos assistindo a tudo isso meio que de mãos atadas, sem poder fazer muita coisa pra ajudá-los.
Beijos Juju!!!
:)
Postar um comentário