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21.9.11

A vida fora do Brasil


Desde a primeira vez que estive na Europa, no início dos anos 80, reparei na diferença do modo como as pessoas vivem lá, o jeito mais simples do dia-a-dia, e isso me impressionou, mais ainda porque constatei que aqui é tudo mais complicado, por que será?
   
foto que fiz em Berlin em 2009

este texto abaixo já saiu há algum tempo na imprensa, quem não leu é bom ler e refletir

A vida fora do Brasil -  Como a classe média alta  brasileira é escrava do “alto padrão” dos supérfluos - por Adriana  Setti


"No ano  passado, meus pais (profissionais ultra-bem-sucedidos que ecidiram  reduzir o ritmo em tempo de aproveitar a vida com alegria e saúde)  tomaram uma decisão surpreendente para um casal – muito enxuto, diga-se  – de mais de 60 anos: alugaram o apartamento em um bairro nobre de São  Paulo a um parente, enfiaram algumas peças de roupa na mala e embarcaram  para Barcelona, onde meu irmão e eu moramos, para uma espécie de ano sabático.
Aqui na capital catalã, os dois alugaram um apartamento gradabilíssimo no bairro modernista do Eixample (mas com um terço do tamanho e um vigésimo do conforto do de São Paulo), com direito a limpeza de apenas algumas horas, uma vez por semana. Como nunca cozinharam para si mesmos, saíam todos os dias para almoçar e/ou jantar.  Com tempo de sobra, devoraram o calendário cultural da cidade: shows,  peças de teatro, cinema e ópera quase diariamente.
Também viajaram um  pouco pela Espanha e a Europa. E tudo isso, muitas vezes, na companhia  de filhos, genro, nora e amigos, a quem proporcionaram incontáveis  jantares regados a vinhos.
Com o passar de  alguns meses, meus pais fizeram uma constatação que beirava o  inacreditável: estavam gastando muito menos mensalmente para viver aqui  do que gastavam no Brasil. Sendo que em São Paulo saíam para comer fora  ou para algum programa cultural só de vez em quando (por causa do  trânsito, dos problemas de segurança, etc), moravam em apartamento  próprio e quase nunca viajavam.

Milagre? Não. O que acontece é  que, ao contrário do que fazem a maioria dos pais, eles resolveram  experimentar o modelo de vida dos filhos em benefício próprio. “Quero  uma vida mais simples como a sua”, me disse um dia a minha mãe. Isso,  nesse caso, significou deixar de lado o altíssimo padrão de vida de  classe média alta paulistana para adotar, como “estagiários”, o padrão  de vida – mais austero e justo – da classe média europeia, da qual eu e  meu irmão fazemos parte hoje em dia (eu há dez anos e ele, quatro). O  dinheiro que “sobrou” aplicaram em coisas prazerosas e  gratificantes.

Do outro lado do Atlântico, a coisa é bem  diferente. A classe média europeia não está acostumada com a moleza.  Toda pessoa normal que se preze esfria a barriga no tanque e a esquenta  no fogão, caminha até a padaria para comprar o seu próprio pão e enche o  tanque de gasolina com as próprias mãos. É o preço que se paga por  conviver com algo totalmente desconhecido no nosso país: a ausência do  absurdo abismo social e, portanto, da mão de obra barata e disponível  para qualquer necessidade do dia a dia.

Traduzindo essa teoria na  experiência vivida por meus pais, eles reaprenderam (uma vez que nenhum  deles vem de família rica, muito pelo contrário) a dar uma limpada na  casa nos intervalos do dia da faxina, a usar o transporte público e as  próprias pernas, a lavar a própria roupa, a não ter carro (e manobrista,  e garagem, e seguro), enfim, a levar uma vida mais “sustentável”. Não  doeu nada.

Uma vez de volta ao Brasil, eles simplificaram a  estrutura que os cercava, cortaram uma lista enorme de itens supérfluos,  reduziram assim os custos fixos e, mais leves,  tornaram-se mais  portáteis (este ano, por exemplo, passaram mais três meses por aqui, num  apê ainda mais simples).

Por que estou contando isso a vocês?  Porque o resultado desse experimento quase científico feito pelos pais é  a prova concreta de uma teoria que defendo em muitas conversas com  amigos brasileiros: o nababesco padrão de vida almejado por parte da  classe média alta brasileira (que um europeu relutaria em adotar até por  uma questão de princípios) acaba gerando stress, amarras e muita  complicação como efeitos colaterais. E isso sem falar na questão moral e  social da coisa.

Babás, empregadas, carro extra em São Paulo para  o dia do rodízio (essa é de lascar!), casa na praia, móveis caríssimos e  roupas de marca podem ser o sonho de qualquer um, claro (não é o meu,  mas quem sou eu para discutir?). Só que, mesmo em quem se delicia com  essas coisas, a obrigação auto-imposta de manter tudo isso – e  administraressa estrutura que acaba se tornando cada vez maior e  complexa – acaba fazendo com que o conforto se transforme em escravidão  sem que a “vítima” se dê conta disso. E tem muita gente que aceita  qualquer contingência num emprego malfadado, apenas para não perder as mordomias da vida.

Alguns amigos paulistanos não se conformam com  a quantidade de viagens que faço por ano (no último ano foram quatro  meses – graças também, é claro, à minha vida de freelancer). “Você está milionária?”, me perguntam les, que têm sofás (em L, óbvio) comprados  na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, TV LED último modelo e o carro do  ano (enquanto mal têm tempo de usufruir tudo isso, de tanto que ralam  para manter o padrão).

É muito mais simples do que parece. Limpo  o meu próprio banheiro, não estou nem aí para roupas de marca e tenho  algumas manchas no meu sofá baratex. Antes isso do que a escravidão de  um padrão de vida que não traz felicidade. Ou, pelo menos, não a  minha.
Essa foi a maior lição que aprendi com os europeus — que  viajam mais
do que ninguém, são mestres na arte do savoir  vivre e sabem muito bem como pilotar um fogão e uma  vassoura.

PS: Não estou pregando a morte das empregadas  domésticas – que precisam do emprego no Brasil –, a queima dos sofás em  L e nem achando que o “modelo frugal europeu” funciona para todo mundo  como receita de elicidade. Antes que alguém me acuse de tomar o comportamento de uma parcela da classe média alta paulistana como uma generalização sobre a sociedade  brasileira, digo logo que, sim, esse texto se aplica ao pé da letra para um público bem específico. Também entendo perfeitamente que a vida não é tão “boa” para todos no Brasil e  que o “problema” que levanto aqui pode até soar ridículo para alguns –  por ser menor. Minha intenção, com esse texto, é  apenas tentar  mostrar que a vida sempre pode ser menos complicada e mais racional do  que imaginam as elites mal-acostumadas no Brasil"

foto que fiz em Berlin em 2009

foto que fiz em Cottbus, Alemanha, em 2009

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3 comentários:

simplesmentefascinante disse...

Olá Juju,
Interessantíssimo o texto, faz a gente refletir e muito.
Faço parte da classe média baixa, mas esses conceitos são muito aplicáveis, até como modo de vida.
Pra que tanta pose, se o interior tá pressionado?
Outro dia conversando com uma amiga, ela dizia que a filha estava stressada, poderia até estar com gastrite, a troco de um "bom emprego", muita exigência e pressão. Pensei comigo... será que vale a pena? A amiga diz que vale e muito, então como discutir? Fico me checando e me cobrando, mas sei lá, esse texto veio de encontro ao que penso e já uso como norma de vida.
Mas....valeu o post.
bjão
Mari

Taia Assunção disse...

Congo ainda é um mundo à parte, para vir para cá muitas são as regalias oferecidas e ainda assim nem todo mundo encara. Noutro dia estava lavando a varanda e o supervisor veio ver o que estava acontecendo...oxe, disse a ele: só estou limpando a MINHA casa. Tenho empregada para limpar meu quarto/sala/cozinha às vezes quero ficar só, mas não dá...e assim vamos que vamos. Beijocas!

Jô Bibas disse...

Juju, gostei de encontrar o teu blog. Temos um jeito parecido de ver as coisas: viagens, a relação com os livros, a cidadania. Nosso blogs combinam!
Bom domingo,